Completo
A consciência é um fenômeno da presença. Não existe consciência fora de um locus — ela se dá sempre na perspectiva do agora. Mesmo quando, pela memória, acessamos lembranças do passado, ou quando, pela imaginação e pelas crenças, projetamos planos e adivinhações sobre o futuro, o fenômeno consciente acontece sempre no instante imediato, no momentum. A nitidez das recordações ou a clareza dos projetos depende do quão límpida (ou turva) está a sala interior do pensador consciente.
Pode-se definir consciência como os momentos da jornada em
que percebemos o caminho, em que nos vemos em contato com a realidade (um
contato sempre pontual e localizado). É o ato de desvelar o mundo metro a metro,
de recompor a existência como peças de um quebra-cabeça espalhado por uma vasta
extensão. Em estado consciente, reconhecemo-nos existindo no mundo, mas não
vemos o mundo e nós mesmos em sua totalidade.
Outra forma de compreender a consciência é como uma luz
direcional que ilumina apenas o seu entorno em um palco escuro. Mas não se
trata de um campo amplo de claridade. Imagine uma sala escura e desconhecida,
onde você segura uma lanterna fraca e oscilante. Essa lanterna só permanece
acesa enquanto você se mantém atento à jornada. No instante em que os
pensamentos se afastam da presença, a luz se apaga. E mesmo quando acesa, nunca
revela o todo: apenas frações, recortes da sala escura. Cada vez que o facho de
luz muda de direção, o que estava iluminado retorna de imediato ao breu.
Esse breu é o nosso inconsciente. É o mundo interior da
mente e da subjetividade, que opera na camada dos instintos e das intuições. É
o nosso eu mais profundo, aquele que verdadeiramente nos conhece e nos
reconhece. Se a consciência nos revela apenas fragmentos, é no plano do
inconsciente que as peças se recombinam e formam um todo coeso.
É a nossa subjetividade que, como um buraco negro envolto
por um disco de acreção, absorve cada fragmento de lucidez. Processa-os,
interioriza-os e os incorpora, até que, em seu interior insondável, componha a
totalidade. Essa compreensão integral da realidade, que só existe no plano
subjetivo, não retorna à superfície como uma maquete nítida e detalhista do
mundo. Ela se manifesta sempre de forma sutil e indireta, convertendo-se em
convicções, certezas e utilizando os sentimentos como uma gramática tangencial.
Olho para uma face da montanha e percebo sua forma, sua
estatura. Desloco-me para a frente oriental e descubro nela outra silhueta,
outras luzes. Aproximo-me de sua base, noto a textura das rochas, sinto o odor
da vegetação. Escalo até o cume e, de lá, contemplo os vales que a cercam. Em
cada um desses momentos, minha consciência encontrou a montanha. Mas em nenhum
deles vi a montanha verdadeira. Dentro de mim, cada perspectiva se moldou,
fundiu-se e integrou-se. O resultado, porém, não foi uma imagem mais nítida
dela, e sim a experiência: o medo da altura, o frio na espinha, o arrepio da
contemplação, a sensação de ser apenas um grão de poeira.
Essa relação complexa, entre um eu presente e lúcido, ainda
que míope, e um eu lírico, onírico e simbólico, ainda que vasto, é, em sua
integração, o que constitui minha presença na realidade.
Sabedoria é reconhecer essa existência integral: colecionar
perspectivas, recolher olhares em todas as direções e permitir que o disco de
acreção em torno da nossa subjetividade alimente a percepção do todo com
infinitos instantâneos da realidade. E depois, ao longo da jornada, confiar às
revelações dos instintos e dos sentimentos a interpretação do mundo.
Estupidez, ao contrário, é manter-se imóvel, deixando a vida
interior atrofiar por falta de alimento. Mas igualmente estúpido é aquele que
se move apenas pelo que os olhos veem, ignorando a construção subjetiva. O
néscio tanto pode morrer de inanição quanto de obesidade: sucumbir à alienação
de uma existência estática, incapaz de crescer com a experiência, ou
enlouquecer em meio a uma vida repleta de vivências que não se deixam forjar na
subjetividade nem se processam no interior das sensações e dos instintos.
Viver é viver a totalidade. Vive mais quem sorve, com sede e
fome, as experiências da vida. Cresce mais quem descobre a forma do real não no
fato óbvio que se oferece aos olhos, mas nas camadas que se adensam pela
experiência e pela reflexão. Faz mais quem age com a totalidade de sua
existência: conhecimento e instinto, raciocínio e sentimento, lógica e fé.
Quando vivemos apenas pelo que conseguimos exprimir em
palavras, quando tentamos controlar as narrativas de nossos instantâneos pela
força bruta da linguagem, ficamos restritos ao alcance de nosso vocabulário. Por
mais denso e amplo que seja nosso repertório, ainda será insignificante frente
a realidade completa. Ao viver em totalidade, ao abraçar nossa subjetividade,
já não estamos mais cativos das palavras: passamos a enriquecer nossa expressão
com a convicção e o brilho interior.
É certo, contudo, que ampliar o repertório do conhecimento
consciente expande também nossa capacidade de integrar a realidade. Mas
palavras sem o fulgor da compreensão subjetiva não passam de artifícios. A
busca do conhecimento, seja pela experiência vivida, seja pela cultura,
torna-se estéril se não nos ligamos visceralmente a essa jornada. Se o saber
adquirido não se torna fisiológico, se a experiência consciente não cria raízes
em nossas crenças e em nossa fé, transformando o solo e reconfigurando nossa
compreensão, ele não passa de um palavrório extenso, sem significado e sem
valor.