Amor, conhecimento e virtude

Por muito tempo, acreditei que amor e ódio eram sentimentos antagônicos. O amor, como a virtude em seu estado mais puro e concentrado; o ódio, como uma espécie de vácuo deixado por sua ausência.

Mas, ao entender melhor o amor — e mais do que isso, ao experimentá-lo em suas diversas formas — passei a compreender que esses dois sentimentos, amor e ódio, não são opostos: são exatamente o mesmo sentimento, afetos da mesma natureza e, essencialmente, qualitativamente equivalentes.

O verdadeiro oposto do amor é a indiferença. A ausência do amor, o seu vácuo, não é o ódio, mas a incapacidade de amar — o não-afeto. E a indiferença é, igualmente, o vazio deixado pelo próprio ódio quando este se esvai. Esta é uma primeira pista de uma equivalência substancial.

Amor e ódio são potências que habilitam todos os nossos afetos — da alegria ao pranto, do desejo à inveja, da força à fraqueza. Se nossos sentimentos são a matéria, o amor e o ódio são as forças fundamentais que mantêm essa matéria coesa, que lhe dão forma e conferem eficácia, moldando suas qualidades mais essenciais.

O que são, então, amor e ódio um para o outro? O ódio é o que acontece com o amor quando este é ferido ou sufocado por tempo demais. O ódio é o amor rebelado, o amor apodrecido pela negligência e pela negação. É o amor corrompido. Quando mortalmente ferido, o amor não permite o vácuo da indiferença — ele se transforma em algo mais sombrio: um cadáver, que se decompõe lentamente, até transformar todos os afetos em ossos secos. Sua presença passa a contaminar tudo o que toca.

É esse o ódio que vemos nas manifestações de intolerância, nas ofensas raciais, na homofobia, nas discussões ideológicas em que estão em disputa as mentes e os corações das pessoas. Amor e ódio são forças de ação poderosas, mobilizam e engajam — e, por isso, são matéria de interesse político muito mais do que a fria indiferença. Mas por quê vemos hoje o ódio como manifestação predominante nas forças sociais? Por que este se acumula em desproporção ao seu espelho, o amor?

Ambos são o combustível puro das paixões humanas e, por isso, seu potencial bruto é alvo de disputa em todas as arenas de poder. Quem instiga o amor e o ódio das pessoas tem um exército que não pode ser derrotado.

Mas, nesse contexto, o ódio confere maior vantagem ao dominador. O amor necessita de tempo e de esforços cuidadosos para que seus fundamentos sejam erguidos. Requer cultivo, o empenho de muitas pessoas, e precisa ser fortalecido antes de resistir às agressões da vida.

O ódio, ao contrário, é gerado pela simples contaminação desse processo. Exige menos esforço, baseia-se na sabotagem, e não na construção; se beneficia do esforço alheio, como aqueles pássaros que roubam ninhos para criar seus próprios filhotes. Para construir o ódio, basta misturar o fermento do medo e da rejeição, que leveda toda a massa.

É mais trabalhoso — e, eu diria, até menos eficaz do ponto de vista político — cultivar o amor das pessoas. O poder se estabelece com maior facilidade ao semear o medo, que transforma amor em ódio, do que ao construir valores que potencializem o amor. Amor é investimento de longo prazo. Ódio traz retorno imediato.

E talvez o aspecto mais perverso de tudo isso seja o fato de que o ódio se fortalece na desigualdade. Não interessa à política uma sociedade feliz e justa. O conflito e a contradição nutrem os poderes deste mundo e, por isso, não interessa a esses poderes um mundo movido pelo amor e pelo conhecimento.

Bertrand Russell afirma que “uma vida de virtude é uma vida inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento”. E a estrutura da nossa sociedade é frontalmente abalada por essa combinação. Amar é um ato de rebeldia — uma afronta direta a todo o sistema que nos rege.

Escolher amar é escolher a mudança redentora que nosso mundo precisa com tanta sede. É preciso desafiar quem instiga o seu ódio: este é um sinal claro de que a intenção deste é contrária a sua felicidade. Quem quer o seu crescimento cultiva o amor em você e nos seus próximos. Quem deseja sua prosperidade fortalece os seus fundamentos, eleva suas afeições. Quem anseia a mudança real promove valores fundamentados na virtude. 

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