Incongruente
Ais! Um mais um e um sem um...
Tem dois de mim! Dois, ora pois!
Que soma é essa que divide e multiplica?
Minha matemática não se conta em números!
Um diligente, um displicente...
Um completo, um quebrantado...
Um sóbrio, um ébrio...
Um crédulo, um cínico...
Um homem, um lobo...
Dois – e dois unos, dois de um.
Esses dois, singulares que sou, não concordam! Simplesmente não e não.
Feijão ou arroz. Bife ou acebolado. Queijo ou mel. Beijo ou
mal.
Dois que são sujeitos e predicados, não há nada que os una.
Nem sentido se forçam a fazer.
Nada que os funda.
Nada que os funde.
Nem fundir, nem fundar.
São dois e ponto final – ou seria uma interrogação?
Essa duplicidade não-quiral,
não há, tal qual o tal,
nem uma pá e nem o cal.
é a metade e a metade de uma metade....
soa ridículo, por que é - não tem ali qualquer aritmética!
Somas impossíveis – nada com tudo, sal com açúcar.
Dividem-se com sobra e sem vírgula. Inteiros e decimais.
Uma conta errada, rabiscada, borrada, rasurada.
Não há dois nem um, há infinitos, de tão longa a distância que os separa.
Mas não se separam, nem com um raio.
Este sou eu – um ser dual – ou dois seres unos.
Não
confunda minhas contas, senão, tenho que começar a contar do zero.
Um, dois.... Vinho e água... óleo e peixe... música e amor....
Até que combinam: eu e eu mesmo.
Gosto assim – sem dividir, mas também, sem unir.
Que se confundam meus adversários – nem parecem tão inimigos assim,
parecem até familiares e, no final, são todos eu – farinha do mesmo saco.
Nossa! Era eu o tempo todo!